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Março/2014 - Fábio Steinberg

A Cidade que Virou Personagem

Há seis anos, Albuquerque com seus 550 mil habitantes, no estado americano do Novo México, era uma cidade desconhecida. Nem mesmo os fãs da cantora Demi Lovato sabem que ela nasceu lá. Cercada por montanhas e desertos, não é exatamente um destino que as agências incentivam turistas a visitar. Isso mudou em 2007.

Atraída por incentivos fiscais, a produtora de televisão AMC escolheu Albuquerque como cenário para a série Breaking Bad. Trata-se da trajetória de Walter White, um professor de química que ao descobrir ter câncer terminal decide fabricar metanfetamina, uma droga viciante, para deixar um legado financeiro à família.

A série se tornou fenômeno mundial de audiência e sucesso de crítica. Ganhou vários Emmy, o Oscar da tevê americana, entre outros prêmios. Só nos Estados Unidos, foi assistida em média por cinco milhões de espectadores, número que dobrou no último capítulo, que foi ao ar em setembro.

Albuquerque, também conhecido pela sigla do aeroporto, ABQ, ganhou tanta notoriedade quanto os principais atores do seriado, Walter White (Bryan Cranston) e Jesse Pinkman (Aaron Paul). Um dos méritos foi filmar em uma cidade de verdade, fórmula que já funcionara bem em séries de sucesso como Os Sopranos, gravada em Nova Jersey.

A maior parte das cenas externas foi ambientada em locações reais: casas, restaurantes, ruas, estradas no deserto e até mesmo um lava-rápido. “Albuquerque se tornou o personagem central da trama”, comentou Vice Gilligan, criador de Breaking Bad. A ponto de deixar morta de inveja Santa Fé, a cidade vizinha que sempre reinou absoluta no turismo da região.

Hordas de visitantes de todo o mundo foram atraídas não só pela cidade como pela beleza selvagem do deserto, tão bem retratada no seriado. Surgiu em paralelo uma “economia Breaking Bad”, com produtos e serviços inspirados no roteiro. Assim, uma bala azulada que lembra a droga produzida por Walter White tornou-se líder absoluta de vendas na loja de doces Candy Lady – vendeu 35 mil caixinhas nos últimos dois anos. O mesmo sucesso ocorreu com o fast food “Los Pollos Hermanos".

Mas não foram só estes os benefícios da parceria entre as autoridades de Albuquerque, os seus cidadãos e os responsáveis pela série. Durante as filmagens, a produção contratou uma média de 200 pessoas, alugou casas e grandes áreas para servir de estúdio, utilizou serviços locais, como hotéis, locação de carros, serviços de alimentação, entre outros.

Até os residentes ganharam um dinheirinho para atuar como extras, assim como donos de casas e negócios usados nas gravações. Surgiram tours tematizados para todos os bolsos – ônibus, limusine ou bicicleta – para visitar locais onde se passa a série.

Breaking Bad não é um feliz acidente de percurso, mas fruto de um sério e contínuo planejamento governamental. Há duas décadas, o estado do Novo México se tornou um dos líderes americanos na atração de produções. Trata o cinema e as séries de televisão como um viajante vip, e em contrapartida recebe imensa publicidade como destino turístico. Um exemplo que deveria ser seguido pelo Brasil.


  • Fábio Steinberg

    Fábio Steinberg

    Jornalista, Foi Executivo de Comunicação na IBM, AT&T, HILL & KNOWLTON e Rede Globo

*Carioca radicado em Sao Paulo, é jornalista, consultor em comunicação empresarial e autor dos livros Ficções Reais, Viagens de Negócios e O Maestro. Escreve em diversas publicações e mídias sociais sobre viagens, carreira, negócios e comportamento.

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